Em algum lugar do Brasil profundo, uma mulher de mãos calejadas e memória viva
apanha a agulha. Introduz o fio no buraco minúsculo e começa — como sua mãe
começou, como a avó da sua mãe começou — o gesto antigo de bordar o afeto
no tecido do tempo.
A poucos quilômetros dali, outra mulher recolhe os ramos de arruda do quintal
antes que o sol do meio-dia os ressecasse. Apanha o copo de água, fecha os
olhos, e sussurra as palavras que a avó dela sussurrou, que a avó da avó dela
recebeu como um segredo de confiança, um mapa para curar o que a medicina
ainda não soube nomear.
Esta reportagem é uma visita às suas casas. Um convite à escuta.
Um registro de que elas existem, elas resistem, elas ensinam.
✦ ✦ ✦
O Elo Secreto
✦ ✦ ✦
A Geometria Oculta no Fio
Antes de ser arte, o bordado foi sempre matemática. A bordadeira que
conta pontos está, sem saber que sabe, operando em simetria bilateral,
translação e repetição modular — os mesmos princípios que organizam
os fractais da natureza e as tesselas de um mosaico árabe.
Para cada fileira de ponto-cruz, a mestra calcula proporção antes de
inserir a agulha: quantas casas de fio, em que diagonal, com que
intervalo de cor. Um erro de contagem aparece dez centímetros à frente,
denunciado pela ruptura de simetria. O tecido não perdoa e não mente.
Esta relação entre paciência aritmética e memória afetiva é o
coração desta reportagem. Quando Cleonis borda uma flor de dezoito pétalas
simétricas sem régua e sem papel quadriculado, ela está executando uma
operação geométrica transmitida de mão em mão ao longo de gerações —
mais viva, mais precisa e mais humana do que qualquer algoritmo.
Matemática Têxtil
01 / 04
Ponto Cheio e Densidade
Proporção áurea e equilíbrio de saturação no linho
Matemática Têxtil
02 / 04
Matriz Regular de Ponto Cruz
Geometria cartesiana com repetição modular no plano
Matemática Têxtil
03 / 04
Simetria Radial e Fractais
Subdivisão angular e rotação contínua de 360°
Matemática Têxtil
04 / 04
Aritmética do Bastidor
Cálculo de malha e densidade de fios por centímetro
A geometria dos pontos: alternância de matrizes e simetriasAcervo do Projeto
360°
Simetria rotacional dos pontos estrela
∞
Padrões geométricos transmitidos oralmente
7
Tipos de simetria plana nos bordados nordestinos
"
Cada ponto que dou é uma conta que faço. A agulha entra no pano como a
gente entra no mundo: procurando onde firmar o laço.
"
A matemática do bordado é, antes de tudo, uma matemática do tempo.
Não do tempo cronometrado dos escritórios, mas do tempo vivido —
o tempo que uma avó leva para ensinar à neta o ponto rococó, que é o mesmo
tempo de uma conversa, de uma canção, de uma tarde inteira de domingo.
Nos grupos de bordadeiras do Maranhão, do Nordeste e do Vale do
Jequitinhonha, é comum ver mulheres calculando padrões de memória,
convertendo medidas de palmo em proporções de grade sem nunca ter
estudado geometria formal. O bordado as ensinou antes da escola.
E essa sabedoria, invisível nos currículos, é um patrimônio imaterial
que vale tanto quanto qualquer teorema.
◇
Simetria
O ponto cruz cria grades simétricas idênticas às usadas em cristalografia — a ciência dos minerais.
∿
Sequência
A contagem de pontos por fileira segue progressões aritméticas transmitidas oralmente entre gerações.
✦
Fractal
Padrões florais se repetem em escalas diferentes, da peça inteira ao detalhe de cada pétala bordada.
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Caderno I
A Poética do Fio e da Agulha
Na paciência de cada ponto, uma geografia de afeto e sobrevivência.
O bordado não é apenas desenho no linho: é independência, criação de filhos
e a história viva de quem fez da linha a sua voz no mundo.
Cleonis · Registro documentalAcervo da Reportagem
Mestra Bordadeira
Ponto Cruz Ponto Cheio Bainha Aberta
Cleonis
72 anos·Casa dos Bordados, Maranhão·Mais de 6 décadas no ofício
"O bordado significa muita coisa boa para mim. Foi minha renda e meu trabalho. Com ele, consegui criar meus filhos. Para mim, o bordado é uma maravilha."
Aluna do Colégio Caixa dos Pobres até a quinta série, Cleonis aprendeu a bordar na infância com amigas da mãe para ajudar em casa e conquistar sua própria renda. Com a agulha e a linha, criou seus filhos de forma independente, vendeu peças para múltiplos estados e levou sua arte a reportagens nacionais na TV Mirante e na Globo.
InícioNa InfânciaCom amigas da mãe
FormaçãoColégio Caixa dos PobresAté a 5ª série
ReconhecimentoNacionalGlobo e TV Mirante
Registro Sonoro #01
Memória das Agulhas & O Encontro no Sertão
Cleonis · Mestra Bordadeira (com a Turma 301 do IEMA) · 2:35
0:002:35
Ver transcrição completa do relato
[Dona Cleonis]: As peças... que eu levei para a TV Mirante, foi com a gravação de uma TV Mirante que me perguntavam o que eu cobrava no meu bordado de confecção. Para eles poderem ir na minha casa e dizer: "Pode ser". Aí fui eu que tinha uma almofada na minha casa.
[Alunos]: Ah! Então a senhora apareceu numa reportagem na TV Mirante?
[Dona Cleonis]: Sim.
[Alunos]: Caramba! A gente vai achar essa reportagem então para exibir lá, tudo bem?
[Dona Cleonis]: Foi... foi eu que passei na TV Mirante, na TV Globo também tem.
[Alunos]: E o nome da reportagem, a senhora não lembra?
[Dona Cleonis]: É...
[Alunos]: Não lembra o nome da reportagem?
[Dona Cleonis]: Não, eu acho que não tenho mais na memória. Mas a gente procura.
[Alunos]: Não, a gente pode procurar então para poder exibir lá e contar um pouco da sua história!
[Dona Cleonis]: Na minha casa eu tenho... olha aqui o que tem... Olha aqui que bonita: eu tenho uma blusa de crochê lá em casa, era de quando eu tinha 36 anos.
[Alunos]: Ah, e a senhora se importaria se a gente pegasse essa peça para expor nesse projeto da nossa escola, junto com as fotos?
[Dona Cleonis]: Não, não me importo. É bonita do mesmo jeito!
[Alunos]: Então a gente pode usar as suas peças lá na exposição, né?
[Dona Cleonis]: Eu tenho... eu tenho toalha de mesa na minha casa, eu tenho almofada... Eu tenho toalha com bordado, minhas coisinhas tudinho. Tem muita almofada bordada de um bocado de cores!
[Alunos]: O projeto vai acontecer sexta-feira que vem. A senhora está super convidada para ir lá no IEMA para ver, assistir a realização do projeto todinho! A senhora está convidada para ir lá!
[Dona Cleonis]: É sexta-feira agora, né?
[Alunos]: Não, na próxima! Dia 18, no caso. Sexta-feira que vem, dia 18 de setembro. Será que a senhora consegue ir?
[Dona Cleonis]: Não sei... Dia 17 é meu aniversário!
[Alunos]: Olha aí! Parabéns adiantado para a senhora! A gente confirma direitinho e vai buscar as peças com a senhora também.
[Dona Cleonis]: Tá bom.
[Alunos]: Muito obrigado pela sua participação e colaboração com o nosso projeto e com a nossa entrevista!
História Oral & Depoimento
Vozes do Ofício: Entrevista com Cleonis
Depoimento gravado para o acervo desta reportagem, documentando o aprendizado precoce,
a sobrevivência através da agulha e a emancipação feminina no Maranhão.
01
Como foi sua infância?
"Minha infância foi repleta de trabalho e já marcada pelo bordado."
— Cleonis, relato oral✦
02
Por que começou a trabalhar tão cedo?
"Comecei a trabalhar cedo para ajudar em casa e também para ter minha própria renda."
— Cleonis, relato oral✦
03
Quem ensinou você a bordar?
"Aprendi a bordar com amigas da minha mãe."
— Cleonis, relato oral✦
04
Como foi sua vida escolar?
"Estudei no Colégio Caixa dos Pobres até a quinta série."
— Cleonis, relato oral✦
05
Como as mulheres que trabalhavam com bordado eram vistas naquela época?
"O bordado era visto mais como uma atividade de lazer, mas acabava também se tornando uma importante fonte de renda."
— Cleonis, relato oral✦
06
O bordado ajudava na renda familiar?
"Sim. Foi através da venda dos bordados que consegui criar meus filhos."
— Cleonis, relato oral✦
07
Há quanto tempo você trabalha especificamente na Casa dos Bordados?
"Trabalho na Casa dos Bordados há cerca de seis anos. Antes disso, eu já trabalhava de forma independente, inclusive vendendo meus bordados para outros estados."
— Cleonis, relato oral✦
08
Quantos filhos você tem? O bordado foi repassado para seus filhos?
"Tive três filhos, mas infelizmente um deles faleceu. Passei o conhecimento do bordado para minha filha."
— Cleonis, relato oral✦
09
Como você diria que o bordado influenciou sua vida? Qual é o significado dele para você?
"O bordado significa muita coisa boa para mim. Foi minha renda e meu trabalho. Com ele, consegui criar meus filhos. Para mim, o bordado é uma maravilha."
— Cleonis, relato oral✦
10
Existe algum momento ou lembrança que marcou sua história com o bordado?
"Sim. As primeiras peças que fiz foram muito marcantes, principalmente as roupas que confeccionei para meus filhos. Também foram importantes as reportagens sobre meu trabalho que apareceram na Globo e na TV Mirante."
— Cleonis, relato oral✦
✦ ✦ ✦
Caderno II
A Cura que Brota da Fé e da Palavra
Nas mãos que abençoam, nos ramos que acalmam e no silêncio do sussurro —
a sabedoria ancestral de quem faz da oração uma pura obra de caridade e acolhimento humano.
Joana Cracista da Conceição · Registro documentalAcervo da Reportagem
Guardiã da Reza Tradicional
Quebrante em Crianças Tirar o Sol Coçadeira Cobreiro Fio de Rede
Joana Cracista da Conceição
Dona Joana · "Mamãe Preta"·São João dos Patos, Maranhão·Mais de 4 décadas de oração
"Não vou ser curadeira, não. Sou só uma ajuda. É tão bom quando a pessoa vem, recebe aquela obra de caridade e fica boa. Eu não cobro: a gente não vende reza."
Nascida nas Lajes e vinda da Baixa do Alto, sertão do Maranhão, Dona Joana — chamada carinhosamente de "Mamãe Preta" pelos afilhados e amigos — venceu longas caminhadas a pé na chinela até fixar morada em São João dos Patos, onde atende há quase quarenta anos. Aprendeu as orações ainda menina apenas observando e guardando na memória o saber das rezadeiras antigas. Romeira fervorosa com mais de 35 anos de viagens ininterruptas a Juazeiro do Norte, mantém a regra inegociável de sua tradição: reza é caridade do coração e jamais mercadoria.
InícioNa ObservaçãoCopiando e guardando na memória
PrincípioObra de CaridadeBenzimento gratuito, sem cobrar
Devoção35 Anos de RomariaJuazeiro e Padre Cícero
🕯️
A Tradição do Silêncio e da Gratuidade
Na tradição de Dona Joana, a reza sagrada não pode ser gravada nem negociada: deve ser feita no recolhimento, em tom sussurrado. E jamais se reza à noite, "porque de noite é excelência". O poder do benzimento reside no silêncio e no acolhimento de quem busca alívio.
Registro Sonoro #02
A Palavra que Cura: Entrevista Completa com Dona Joana
Dona Joana Cracista da Conceição · Benzedeira Tradicional · 26:09
0:0026:09
Ver transcrição completa do relato
Alô. Tá gravando. Posso te perguntar um pouco? Pode começar.
Ó, primeiro a gente queria que você dissesse pra gente só o seu nome completo. É Joana Cracista da Conceição.
E a senhora gosta de ser chamada assim? É, gosto. É que a gente tem que chamar, né? Por o nome, né? Por o nome.
Qual a sua idade? Pô, mulher, minha idade eu não sei. O meu documento não tá nem aqui. Tá lá na academia eu fiz. Aí, de primeiro povo, não sabia como era que fazia com os filhos. Ele teve que ficar com medo, mas aí ele tá lá na casa do Tão Cê.
E a senhora lembra há quanto tempo que você mora aqui em São João dos Patos? Eu parecia que tô com 20, 40 anos. Eita, bastante tempo. É. A senhora já morreu, tá com 30? Tá o quê? Vai ser 30 anos que eu tô aqui. O Leonardo tinha 10 anos, já tá com 35 anos.
A senhora é de onde? Eu sou daqui de onde esse mundão de Neubeu. Aí vim pra Baixa do Alto, mais de Deus, viu falar? Não, não conheço. Pois é, nós morávamos lá. A filha dele é sabendo aí que moramos. Maranhão? Hã? É Maranhão esse local? É. É aqui perto? Aí tomou a filha. A Creuza é a filha dele, só tinha uma filha única. Aí vim, morei mais velho e já me sinto andeando. Nem nunca brigamos, nem eu nem ela, também. Tudo perto, que é ela aqui, a Creuza, que é a mulher de sua vez. Aí então se é tudo, é o quê? Ela que eu cheguei. Voltei, ela morava lá no Rambla Madre. E aí vinha, quando era tempo de parta, e eu vinha, que era pra cuidar dela. E ela hoje. E aí...
A senhora vinha de quê? De lá pra cá? Vinha de cá, de pé, vinha até os dois irmãos. Laje, tudo tinha, de pé. Aí chegava aqui e pegava. Daqui é a minha nora, que é a mulher do Leonardo. E aí, por aqui mesmo.
Aí a senhora vinha de pé até os dois irmãos? Laje, tudo era de pé.
Qual o nome do lugar onde a senhora era, natural? Nas lajes. Aquela que tinha bem na estrada, que não tem... Que a gente vai, passa nos dois irmãos. Os dois irmãos passam nas lajes. Ah, entendi.
Da laje pro barão.
Da laje pro barão. É caminhada grande. Aí a gente andava mesmo na chinela. De primeira era isso. Caminhada era grande.Às vezes, quando chegava na estrada, tinha um caminhão, gente. Ei, bolo de Bahamã. Trazia. Pegue meus padres. E era essa a luta. Agora, graças a Deus, venci a batalha. Aí vim morar aqui. Aí morar de um velho aqui. Tá creio. E aí... Todos somos amigas. Todos... Todos é o quê? E todos os filhos dela me chamam de mamãe preta. Todos. Que é o Edu, a Celânia, Juareza, que fala de neném novo. Tudo, ela me chama tudo de Celânia. Todos estamos unidos aqui. Não temos diferença.
E como é que as pessoas costumam lhe chamar? Se é de benzedeira, se é de rezadeira? Não. É não. É porque eu rezo de um quebrante, de quebrante. Mas não é rezadeira, não. Mas arca caída também. Acho que ela caída.
A senhora reza cobreiro também? Não, rezo, mas aí ninguém não pode. Eu não posso rezar porque a minha espinha não consigo. Vou pegar... Rezar no povo aí e vai... E vai ser pra gente.
Só a espinha ela caída, não é? Da campainha? É, da campainha também. Pega assim uma cobreira de pão e aí vai levando pra fazer a campainha pra subir.
O que é a campainha? É a mesa. Quando a pessoa tá com a garganta inflamada, ela dá uma virada, né? É. Aí aqui ela faz a reza pra voltar. Ela faz cair pra gente. Aí a gente pega, e aí até quando... Pois é.
Das arcas também? As arcas, não. Só na cabeça. Só na cabeça.
Você levanta as arcas, minha nora. Já tá passando pra nora agora? É. Ela já tava com ela. Já tá sabendo. Eita. Pois é.
E quando foi que a senhora começou? Aí eu rezo de um pé branco, aí rezo de um dor de cabeça, de lá no som. E aí... Com certeza não vou rezar mais, porque prejudica muito a gente. E aí eu tô rezando mesmo só com as crianças.
Desde quando a senhora reza? Pois é, rezando nas crianças. Tá agora mesmo rezendo na meta da cruz. A senhora lembra quando a senhora começou a rezar? É.
A senhora lembra quando a senhora começou a fazer as rezes? Fazia, porque os outros rezavam e eu copiava. Ah. Aprendeu? É, pois é.
Novinha? Novinha.A senhora lembra quantos anos a senhora tinha? E aí rezava, fazia. Rezava o povo pela japa que tava rezando. Eu digo, não, não vou ser curadeira, não. Só uma ajuda. Fazia aí, reza de pé branco, coçadeira, cobeira. E... Agora arca não, eu não levanto. Só rezo essas coisas. Mas pras crianças? É.
E quem foi que lhe ensinou? Hã? Os outros rezando e eu copiando.
Aprendeu na observação? É. Copiando, rezando e aí eu vendo e botava na memória.
Tinha uma pessoa assim de referência? É, é que rezava, podia rezar, ele podia rezar.
Quem é essa pessoa que a senhora lembra que rezava? Eu nem sei assim quem é essa pessoa, porque eu não moro mais lá, né? Sim. Aí, aqui, eu trouxe já de lá. Só lembra de ir trazendo e aprendendo, né? É, e aprendendo com o rezando. Oxe, certinho. Aí aprendendo. Vai pra memória, pra memória, pra rezar, pra conversar.
A senhora se lembra da primeira vez que a senhora bese alguém? Bezer? Não, eu bezo assim, tirando o ar-sol, coceira de sol, que eu não vou rezar mais também. E aí, vou encerrando.
Então lembra qual foi a primeira vez que a senhora fez isso? Lembro não, irmão, não lembro, faz anos. Faz anos. Fazia anos. Ano que eu morava pra lá, e aí, pra ficar curando, rezando, aí eu ficava com aquilo na cabeça. E foi um dia pra mim.
Desde antes de vir pras partes, já tava rezando? Era. Tem tempo muito. Pois é. E depois que a senhora começou, a senhora sente que isso mudou o quê na sua vida? Do quê? Como é?
Depois que a senhora começou, a senhora sente que isso mudou o quê na sua vida? Não, aí tem que ficar na lembrança. É, porque fica esquecido.
E tem algum dia, algum horário que a senhora acha que é melhor pra você rezar? Não, qualquer hora que a pessoa chegar que esteja com uma dor de cabeça, pra não tirar um sol, e aí não tem, só não de noite.
E por que não pode de noite? É porque de noite é excelência. Excelência, né? Aí a senhora pode rezar até o sol se pôr.
Então tem que ser em voz alta quando você vai rezar ou tem que ser baixinho? Baixinho.
E o que a senhora usa na hora de fazer uma benza a uma pessoa? A senhora usa planta, alguma erva? Prefere, fazer um cordão pra colocar se a pessoa quiser.
A senhora tem alguma coisa pra nos mostrar sobre esse cordão? Porque eu sei que o som da cabeça bota um litro, né? Agora o cordão é a gente dando os nózinhos. Vai rezando e vai dando os nózinhos.
É tipo um barbante? Não, não é barbante. É o fio.É fio. A gente pega, não é fio de coisa, vai que a gente faz o ladrinho. De rede, né? A linha de rede. Porque tudo tem um jeitinho.
E esse do fio de rede é pra que finalidade? É pra colocar se tiver uma comparação. Uma dor na cabeça, em qualquer lugar. Aí pode amarrar também, né? Mas aí só presta pra espirrar.
E de quebrante, de criança, a senhora usa o quê? Os ramos.
Geralmente qual é o tipo de ramo que a senhora usa? Qualquer um. É a basurinha. O povo joga com a perna. Porque quando chega, né? Aí eu vou lá e tiro. Eu já tirei um também. Na metinha da cruz.
E o quebrante tá forte numa criança. A folha murcha muito rápido. Aí a gente só abrindo a boca. Abrindo a boca e passando.
Eu vou perguntar uma coisa pra senhora. A senhora reza pra criança passar debaixo do punho da rede? Reza sim, ó. A minha filha, quando tinha o quê? 9 ou era 8 meses, ela passou um dia todo dia sem abrir o olho, dormindo. Quando isso aconteceu com meu pai, disseram que era pra passar debaixo da perna do pai dele. Tem isso também, ó. Da minha filha, mandaram eu levar ela porque ela não acordava. Ela tava dormindo mesmo e foi o quebrante. Mas não abria o olho, não. Aí quando botou ela pra fazer, levaram ela, uma pessoa fez ela, aí passou debaixo do punho de uma rede. Tudo bem, passa no punho da rede. No meio do punho da rede? Aí cruz. Faz a cruz aí? Pois é. Eu sei que ela fica agoniada porque ela não abre o olho de jeito nenhum. Não abre os olhos, né? Não abria, ela não acordava. Ela mamava ali, mas continuava dormindo. Dormindo? Pois é. Pois é, eu mesmo rezo de quebrante, coçadeira, e aí de tricidade também. Aqui eu rezo. Agora de bucharia, não quero nem ver.
A senhora é católica? Sou católica. Sou católica de verdade. Trinta e cinco anos que viajo com as vozeiras. Eita, gostei da experiência. Aí trouxe ele, que é meu guardado. Quero que ele fique rosadinho. Quero que ele fique rosadinho, se vocês verem. Com toda certeza, não é mentira. Aí fica assim, branco. Essa estátua aí trouxe de Juazeiro. É o mistério dela. Deu no céu e ele na terra. Se eu sair daqui, vai ou não vai? Coração. Porque passou luz. Aí lá eu vou fazer a característica.Aí lá, quando eu cheguei, passei um tempo, a perna quebrou. Aí de novo tornou eu quebrar a perna. O doutor disse que eu sou mulher de muita fé. Muita fé. Anjo e madeira lá. Meu Deus do céu, comigo. Graças a Deus. Por onde eu ando, sou dessas amizades. O doutor veio me pegar lá na porta. Pois é, Dona Ivone, você vai com Deus. E que Nossa Senhora lhe abençoe. Que você é mulher guerreira. Dizem que ela tem muitos anos, doutor. Aí só tem os dois filhos, só tem os dois homens. Ela tem a minha acompanhada. Ela é o Leonardo, que é o mais desse lado aqui, e é a outra que mora desse outro lado. Mas graças a Deus, subi. E vou subir mais, se Deus quiser. Nossa Senhora, é meu padrocínio. É meu padrocínio. Já estou arrumando aí a Romaria. A comadre Antônio, o Daniel, já estão arrumando a Romaria, mas eu não vou.
A senhora vai pra onde agora nessa Romaria? Não, agora eu não vou. Aí estão dois dias pra mim. Por mim, né? Juazeiro. Ô mulher, vai lá pra tu ver. Meu avô, materno, ele era um devoto do pai do Cício. Pois é. Eu acho bom. A Rosane sabe contar de Juazeiro. Gorete, essa turma aqui, Creuza também. Tudinho. Vários meninos, os filhos. E essa daí sabe também de Juazeiro. Eu nem dei, eu fui, mas aí... Eu achei muito, assim, quando... Fui só um ano. Agora em Juazeiro, eu já tenho que ir só tanto de ano. Eu acho bom, quem quiser ir, é bom pra ver as coisas como é. Porque aqui ninguém... Agora, fiquei na estátua de São Francisco. E aí, e aí os festejos de Nossa Senhora das Duras, que também que é nosso. Sempre atrás, aí se vê a igreja ali.
Eu já ouvi falar que quem reza não pode cobrar pelo serviço. Não, não. Eu não cobro. A pessoa que eu não vou vender, nem reza. Sim, sim. A pessoa querendo agradar, dar um agrado, uma coisa, e de cima, agora, com o pé.
Teve alguma vez que você rezou, assim, numa pessoa, e te marcou bastante a coisa que a senhora nunca vai esquecer? É, não. Não, mas a gente fica esquecida. É tanta gente, né? Às vezes a gente esquece. Eita. Pois é. É isso que eu digo pra vocês. É as coisas boas que tem no mundo. Ela já falou bastantecoisa aqui. É.
E a sua nora, você falou que ela também já sabe algumas coisas. Foi você que ensinou? Quem? Ah, não. Foi ela, não. Foi eu, não.
A senhora já ensinou pra alguém, alguma vez, a benzer? Não. É. Pois é. Eita.
Geralmente só passa pra família, né? Hã? A gente só passa e reza pra família, né? É, não, reza não. Não passa nem pra família, reza sim. É. Eita. Pois é. Eita.
E sobre a questão a gente sabe que a senhora reza, mas a senhora tem alguma orientação pras pessoas que vêm aqui depois, tipo, da reza, de orientação, de cuidado, tipo, ah, olha, dá esse chá pra pessoa que vai melhorar. Não faça isso, que isso aqui não vai dar certo. É. A senhora tem uns conselhos pra dar pras pessoas? Eu tenho, sim, dou, porque é tão bom quando a pessoa vem, que recebe aquela obra de caridade, fica bom. Hum. Aí, quando termina, muito obrigada.
E no seu dia-a-dia? A senhora tem dentro da sua casa o seu canteiro também de ervas medicinais? Não, canteiro a gente não tem porque não pode botar por causa das galinhas que tem na sua casa. Vai comprar, né? Aqui não pode botar não, porque...
E a senhora pode nos apresentar seu altar? Representar? É, pode apresentar aqui. Apresentar seu santuário. Apresentar seu santuário. O que é que ele representa? Aqui é meu pai Jesus, aqui é meu Jesus na manjedoura, aqui, coração de Jesus, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora de Fátima, Santa Joana da Arca, Senhora da Ervosa, Nossa Senhora Aparecida, a cruz, aqui. A maior Aparecida que tem aqui. Nossa Senhora Aparecida. Outra imagem. Outra imagem aqui. É, essa daqui. É, essa daqui, esse daqui vem, são despedidos, do homem do Pará. Isso é Cristo, menina? É, não. Não, essa daqui vem do Pará. E esse aqui? Divino Pai e Perno. E esse daqui? Sagrada Família. E aquela lá, moreninha? Essa bem aqui, ó. E aqui é São Francisco. É? É. Bota pra cá. O que ele representa para a Senhora? Esse aqui é o... Como é o nome desse, Joana? Esse daqui é Jesus. Não, mas tem outro nome que ele dá. Tem o festejo dele, na Piauí. Bom Jesus dos Passos. Bom Jesus dos Passos. Me guardando.
Quem apresentou o Padre Cícero a primeira vez? Quem foi? Foi a minha mãe. A mãe dela sempre tá lá. Minha mãe. Ela foi de pé, de onde ela morava, pra Juazeiro.Passaram quatro meses pra batizar, que era pra batizar o Marido Noel, que era o Padre Jair. Aí, quando ele chegou, quando elas chegaram lá, aí ele perguntou, filha, por que não batizaram lá? Não, meu padrinho, é porque o padrinho é você. Disse, não passou um beatinho lá, não. A mamãe falando pra mim, viu? Aí ele disse, não, meu padrinho, eu quero mesmo é você. Aí ele batizou o Marido Noel. Eu não sei se ela morreu, porque ela mora no Paz Narana. Mas acho que ainda é viva. E aí ficou naquela. Ele foi no quadro dela. Mas minha mãe falou, mataram um boi, um porco, levaram a caga no baú. Pra lá, pra Juazeiro. E foi de pé. De pé na tracada com roulete. Eita. Pois é. Se você, se a mamãe fosse viva pra contar as histórias, as histórias dele.
E o texto? Você também comprou lá? Esse daqui, também de lá. Tudo de lá? E o quadro? E aí é o papo. O João de Deus.
E como foi a sua sensação de ir a primeira vez lá no Juazeiro? O que foi que a senhora sentiu quando chegou lá? Quando eu cheguei, chorei. Tietchan nunca foi assim, Tietchan, aquela vontade. Fica tão emocionado. Com muita fé, né? É, muita fé. A Juazeira sabe aí como é que ela já foi.
Aí quando vocês chegaram lá, qual foi o primeiro lugar que vocês foram? E fizeram o que? Pra de Cícero. Pra subir lá no morro. Um dia. E ainda passa nesse cajado. Vem aqui, ó.
E por que a gente tem que passar no cajado? No cajado, pra ver se os pecados... É? E tem uma mulher que ela não passou, fia. E nas pedras.
E nas pedras que tu... A senhora passou tranquilo. A Rosária também já foi. Na pedra também você passou nas pedras? Nas pedras é assim, ó. É, muitas pedras. É, muita fé. Uma de tum-tum. Eu atira assistindo e ela não passou na pedra.
Mas me digam uma coisa, ela era magra ou ela era forte? Moça, ela era da minha grossura. E eu se pôs pele inteira pra poder passar. Pra poder passar na pedra. E ela tinha... De tum-tum. De tum-tum eu bati vindo. Aí o homem disse mulher, pô, sai porque tu não passou e os outros quer passar. Dizem que quando não passa fica até muito pecado. É pecado. Ela tá contando a história aí.
E qual é o lugar da sua casa que você escolhe pra fazer a reza em uma pessoa? A reza? A reza é aqui mesmo.É mesmo aqui, ó. A porta era aqui mesmo.
E a senhora poderia fazer uma pra gente ouvir a sua reza? Não.
Não pode? A reza não pode ser comprada. Pode ser não. Tem que ser no silêncio.
É bem baixinho, né? Pode. Pode não. Pois é, mulher. E aí?
Quando você estiver com um problema de dor de cabeça com uma coisa com essa pulseira assim na garganta Aí... Eu tenho dor de cabeça demais. E tirar o sol também. Porque pode tirar o que quiser. Pode vir e sentir uma dor de cabeça que tá assim meio acervando porque pode ser um soco, pode ser uma fresta. Bota ela pra tirar um sol na cabeça de vocês aí. A senhora tira um sol da minha cabeça. Pra tirar? Agora? Ah, pode deixar. Pra tirar um sol pra aproveitar que eu tô com...
História Oral & Depoimento
Vozes da Fé: Relato Oral com Joana Cracista da Conceição
Trechos essenciais do depoimento gravado em São João dos Patos (MA), documentando a sabedoria da observação,
o benzimento com ramos e cordões de nós e a devoção sertaneja de uma vida inteira.
01
Como a senhora começou a benzer e quem lhe ensinou?
"Os outros rezavam e eu copiava. Aprendi novinha, só olhando: copiando, rezando e aí eu vendo e botava na memória. Eu digo: não vou ser curadeira, não. Só uma ajuda."
— Joana Cracista da Conceição, relato oral☽
02
Quais aflições as pessoas mais trazem para a senhora rezar?
"Eu rezo de um quebrante, rezo de dor de cabeça, de tirar um sol, de coçadeira e cobreiro. Hoje em dia estou rezando mais mesmo é nas crianças, que é onde mais precisa."
— Joana Cracista da Conceição, relato oral☽
03
Como a senhora faz a reza de quebrante nas crianças e o que utiliza?
"Uso os ramos, a vassourinha. Quando chega com o quebrante forte numa criança, a folha murcha muito rápido na mão. Aí a gente vai só abrindo a boca [bocejando] e passando o ramo."
— Joana Cracista da Conceição, relato oral☽
04
A senhora usa também um cordão com nós para benzer? Como ele funciona?
"É o fio da linha de rede. Não é barbante, é a linha de rede. A gente vai rezando e vai dando os nózinhos. É para colocar onde tiver uma dor de cabeça, em qualquer lugar. Tudo tem um jeitinho."
— Joana Cracista da Conceição, relato oral☽
05
Por que a reza deve ser feita no silêncio e não se pode rezar à noite?
"A reza tem que ser no silêncio, bem baixinho. Não pode ser dita em voz alta. E pode vir em qualquer hora com dor de cabeça ou pra tirar um sol, só não de noite. Porque de noite é excelência."
— Joana Cracista da Conceição, relato oral☽
06
É verdade que quem reza não pode cobrar pelo benzimento?
"Não, eu não cobro. A gente não vai vender nem reza. Se a pessoa quiser dar um agrado de coração, tudo bem, mas cobrar nunca. É tão bom quando a pessoa recebe aquela obra de caridade, fica boa e diz: "muito obrigada"."
— Joana Cracista da Conceição, relato oral☽
07
De onde vem essa ligação e fé tão grande em Juazeiro do Norte?
"Minha mãe foi de pé daqui até Juazeiro pra batizar meu irmão com o Padre Cícero. São trinta e cinco anos que viajo com as romeiras. O doutor no hospital me disse que sou mulher de muita fé. Nossa Senhora é meu padrocínio."
— Joana Cracista da Conceição, relato oral☽
08
Como foi a sua história até chegar em São João dos Patos?
"Vim das Lajes, da Baixa do Alto. A gente andava léguas na chinela, de pé. A caminhada era grande. Mas graças a Deus venci a batalha e vim morar aqui. Aqui todos me chamam de "mamãe preta", todos somos unidos, não temos diferença."
— Joana Cracista da Conceição, relato oral☽
Saberes do Sertão
Elementos do Cuidado e da Reza
Os instrumentos simples e as folhagens do chão sertanejo utilizados no ritual de cura por Dona Joana.
🌿
Vassourinha de Botão
Scoparia dulcis
Ramo colhido verde para benzer o quebrante em crianças. Dona Joana observa que, sob o peso da aflição infantil, a folha murcha rapidamente na mão durante as invocações.
🪢
Fio de Linha de Rede
Algodão torcido tradicional
Linha resistente usada para atar pequenos nós cadenciados durante a prece. O cordão é colocado sobre a fronte ou no membro afetado para conter dores de cabeça e pontadas.
☀️
Ramos de Sol (Tirar o Sol)
Folhagens frescas da mata
Ervas frescas utilizadas nas orações da manhã para aliviar febres, estafa e a quentura na cabeça provocada pelo trabalho sob o mormaço forte do sertão.
🕯️
Altar Doméstico & Romaria
Devoção popular sertaneja
Santuário de fé na sala com Padre Cícero, Bom Jesus dos Passos e Nossa Senhora, cultivado ao longo de mais de 35 anos de romarias a Juazeiro do Norte.